A energia para data centers deixou de ser um assunto de bastidor da tecnologia e passou a ocupar o centro das discussões sobre o setor elétrico. Um estudo da consultoria Kearney, repercutido pela agência eixos em 15 de setembro de 2026, estima que o consumo de eletricidade dos servidores de inteligência artificial deve dobrar até 2030. O dado interessa a quem opera um data center, mas não só. Ele mostra, em escala ampliada, desafios que qualquer indústria, hospital ou centro logístico já conhece: potência disponível, continuidade de fornecimento e custo do horário de maior demanda.
O essencial
– Servidores de IA responderam por 23% a 27% da eletricidade consumida em data centers em 2025, e esse consumo deve dobrar até 2030, segundo o Data Center Demand Index da Kearney.
– Um rack de treinamento de IA pode demandar de 30 a 100 kW, contra 10 a 14 kW na infraestrutura tradicional.
– O Brasil concentra 49% da capacidade instalada de data centers da América Latina, segundo a Moody’s.
– Disponibilidade de energia e de conexão à rede passou a ser critério de localização desses empreendimentos.
– As lições valem para qualquer operação crítica: conhecer a curva de carga, garantir continuidade e gerir a ponta.
O que o estudo da Kearney mostra
O levantamento da Kearney indica que, em 2025, os servidores dedicados à inteligência artificial já respondiam por algo entre 23% e 27% de toda a eletricidade consumida pelos data centers. A projeção é que esse consumo dobre até o fim da década.
O ponto mais revelador do estudo, porém, não é o volume total, e sim a densidade. Segundo a consultoria, racks voltados à inferência de IA operam entre 10 e 30 kW, e os de treinamento de modelos chegam a 30 a 100 kW. Na infraestrutura tradicional, a referência fica entre 10 e 14 kW por rack. Em outras palavras, a mesma área física passa a concentrar uma demanda de potência várias vezes maior, com efeito direto sobre refrigeração, proteção elétrica e capacidade de conexão.
Essa densidade muda a lógica de localização. O estudo identifica quatro perfis de instalação:
– proximidade urbana, para aplicações que exigem baixa latência;
– regional e flexível, para cargas que podem ficar mais distantes dos grandes centros;
– soberania de dados, quando a regulação exige que a informação permaneça no país;
– foco em energia, quando o fator decisivo é o acesso a eletricidade abundante e competitiva.
A conclusão da Kearney é que a infraestrutura digital tende a funcionar como uma rede de papéis complementares, e que o Brasil ocupa posição estratégica por causa da matriz elétrica com alta participação de fontes renováveis.
Por que o Brasil entrou no mapa
Um estudo da Moody’s divulgado em agosto e noticiado pelo Canal Solar mostra que o Brasil concentra 49% da capacidade de data centers da América Latina, à frente do México, com 27%, e do Chile, com 9%. A capacidade regional era estimada em cerca de 2.340 MW no início de 2026, com crescimento anual projetado entre 15% e 20%.
A mesma análise lista as condições para que esse crescimento se sustente: energia firme disponível, capacidade da rede de transmissão, clareza regulatória e acesso a capital. E aponta obstáculos conhecidos do setor elétrico brasileiro, como filas para conexão à rede, limitações de transmissão, atrasos de licenciamento e cortes de geração em regiões de alta produção renovável. Segundo a reportagem, a ANEEL e o Ministério de Minas e Energia licitaram mais de R$ 60 bilhões em projetos de transmissão nos últimos dois anos e meio para ampliar a capacidade do sistema.
O Portal Solar tratou do tema em 17 de setembro com um enquadramento semelhante: com a expansão da IA, disponibilidade de energia, infraestrutura e localização passaram ao centro da discussão.
Quando a demanda de uma carga vira tema tarifário
A chegada de grandes cargas também levanta a pergunta sobre quem paga pela expansão da rede. Em audiência no Senado sobre o PL 3.018/2024, que trata de regras para data centers de IA, o Idec defendeu a criação de um encargo específico para esses empreendimentos, calculado pela ANEEL, para que o custo adicional imposto ao sistema não recaia sobre os demais consumidores, conforme registrou o Canal Solar. A discussão está em aberto.
Leituras recomendadas
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O debate se conecta a outro movimento regulatório: o Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública sobre o rateio do Encargo de Reserva de Capacidade, com proposta de apuração baseada na demanda verificada em uma janela de até quatro horas de maior carga em dias úteis, e contribuições até 8 de outubro de 2026. Nada está definido, mas o movimento merece acompanhamento por qualquer grande consumidor, porque indica que o consumo no horário de maior demanda do sistema tende a ganhar peso na conta, e não apenas o volume total de energia.
Cinco lições que valem para qualquer operação crítica
Poucas empresas vão operar racks de 100 kW. Mas o caso dos data centers funciona como uma lente de aumento para decisões que indústrias, hospitais, centros de distribuição e operações de TI já enfrentam.
1. Conhecer a curva de carga em intervalos curtos, e não apenas o consumo mensal. É o perfil hora a hora que revela picos, cargas deslocáveis e o quanto cada expansão vai exigir de potência. O artigo sobre tarifa azul, verde e enquadramento no Grupo A mostra como esse perfil também define o custo.
2. Tratar potência e conexão como parte do planejamento desde o início. Se a rede local tem limite, descobrir isso depois da decisão de expansão custa caro. Entender os componentes de rede da fatura, como a TUSD, ajuda a dimensionar esse risco.
3. Dimensionar a continuidade pelo custo de uma parada, e não pelo preço do equipamento. A conta está detalhada no artigo sobre quanto custa uma hora de operação parada.
4. Olhar para o horário de ponta com atenção redobrada, porque é ali que tarifas e, possivelmente, encargos se concentram. O peak shaving no setor de serviços é um exemplo de resposta prática.
5. Combinar recursos em vez de apostar em uma única solução. Geração no local, armazenamento, medição e eficiência cumprem funções diferentes e se reforçam.
Onde entram a geração no local e o armazenamento
Em cargas muito densas, a geração própria raramente cobre toda a demanda, e esse não é o objetivo. A função da geração solar em telhados ou estacionamentos, com soluções de rooftop ou carport, é reduzir a energia comprada nas horas de sol e diminuir a exposição a reajustes e bandeiras.
O armazenamento complementa esse papel em duas frentes. Na continuidade, as baterias BESS garantem autonomia durante falhas da rede, algo que a geração solar conectada sozinha não oferece. Na gestão de custo, deslocam consumo para o horário de ponta, como mostram os casos reais de BESS na indústria. E a medição contínua transforma tudo isso em dados para decidir, em vez de estimativas feitas uma vez por ano.
Uma questão de planejamento, não só de tecnologia
A corrida dos data centers mostra que energia deixou de ser um insumo de fundo para se tornar critério de localização, de expansão e de risco. Para empresas de outros setores, a lição é antecipar essa leitura em vez de reagir a ela.
É esse o trabalho que a Helexia faz com seus clientes: avaliar o perfil de carga de cada operação e identificar a combinação adequada de geração, armazenamento, medição e eficiência, com acompanhamento contínuo por meio da sua estrutura de gestão de energia. No modelo as a service, a Helexia investe nos ativos e responde pela performance, e a empresa preserva o capital para o próprio negócio. Os detalhes estão na página de serviços.
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Fontes: agência eixos, 15/09/2026 (reportagem original, estudo Data Center Demand Index da Kearney); Portal Solar, 17/09/2026; Canal Solar, 05/08/2026 (estudo Moody’s); Canal Solar, 06/08/2026 (audiência do PL 3.018/2024); ANEEL; Ministério de Minas e Energia.